Você dorme mal? Suas emoções positivas e a saúde mental podem estar em risco. Maria Alice Fontes

Você é uma pessoa que depois de um dia cansativo de trabalho tem uma boa noite de sono ou tem dificuldades na hora de dormir? 

Um megaestudo americano revisou as pesquisas feitas nos últimos 50 anos e mostrou evidências sólidas de que dormir mal influencia o funcionamento emocional, trazendo consequências para a saúde mental a longo prazo.

A pesquisa mostrou que a falta de sono foi associada a menos emoções positivas, como alegria e contentamento, e aumento dos sintomas de ansiedade. Além disso, o trabalho mostra que esses efeitos negativos ocorrem mesmo quando a pessoa tem pequenas reduções no período de descanso, como deitar uma ou duas horas além do usual.

Os autores da pesquisa buscaram os estudos existentes sobre todo tipo de privação de sono e seu impacto no estado emocional. Para isso, analisaram 154 artigos de 28 países, totalizando 5.715 participantes. 

Nos trabalhos incluídos, os cientistas induziram os voluntários a simular tanto a privação aguda, em que eles ficavam longos períodos sem pregar os olhos, quanto a crônica, em que tinham que dormir menos horas do que o usual. Também foi avaliado o efeito do chamado sono fragmentado, quando ele é interrompido várias vezes.

O impacto emocional foi mensurado por meio de questionários com respostas a estímulos emocionais e testes para medir sintomas de ansiedade e depressão. Todos os dados eram comparados a um grupo controle.

Diferente dos afetos positivos, as emoções negativas como medo, raiva, desgosto e estresse, foram menos consistentes. Para os autores, há uma explicação evolutiva para esse fenômeno: esses sentimentos têm função imediata diante de uma ameaça. O fato de eles serem menos afetados pela falta de sono seria melhor para nossa própria proteção.

Outros estudos sugerem que cerca de 30% dos adultos não dormem o suficiente. Um artigo brasileiro aponta que fatores como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo e excesso de peso também estão associados a problemas para dormir. Em São Paulo, dados do Episono (Estudo Epidemiológico do Sono) mostram que 45% da população queixa-se de insônia.

Já uma recente pesquisa global, da ResMed, em consonância com o Dia Mundial do Sono, comemorado no último dia 15 de março, mostrou que quase 40% dos entrevistados não dormem mais do que três noites de sono reparador por semana e alguns indivíduos afirmaram dormir apenas uma. Entre os principais motivos estão a ansiedade, insônia, dificuldades respiratórias e obesidade. 

A pesquisa, que contou com  36 mil participantes em 17 países,  mostrou que 13% dos entrevistados dormem bem todas as noites. Os japoneses (57%) lideraram a lista em termos de número de noites mal dormidas por semana, enquanto os indianos foram os mais descansados, com 27% afirmando que dormem bem todas as noites.

Ainda, os entrevistados relataram sentir sonolência excessiva durante o dia (50%), sentimentos negativos pela manhã (40%) e mais irritabilidade (39%). O Brasil está entre os quatro países com a maior duração média de sono, 7,1 horas por noite. Os outros três são: Hong Kong, Índia e Tailândia. No entanto, os brasileiros aparecem como os mais incomodados com a falta de sono ideal. Eles dormem em média 1,25 hora a menos. De acordo com o instituto nacional do sono dos Estados Unidos, são recomendadas oito a nove horas de sono por dia.

A importância do sono

Acabar se privando de um sono profundo e saudável pode aumentar a liberação do cortisol, um hormônio que está diretamente relacionado ao estresse.

Além disso, a falta de sono também pode interferir na produção de serotonina pelo cérebro, que é uma substância fundamental para regular nosso humor.

Então, é seguro dizer que uma noite de sono ruim pode bagunçar completamente nossos hormônios, predispondo-nos ao estresse, mau humor e depressão.

Além disso, segundo o estudo “The role of insufficient sleep and circadian misalignment in obesity”, publicado na revista científica Nature Reviews Endocrinology, alguns dos efeitos da falta de sono são a redução do gasto de energia em 3%, alteração dos níveis de hormônios do apetite e influência nas escolhas alimentares menos saudáveis do que em condições de sono adequado, contribuindo para o aumento de incidência de casos de obesidade.

Se a gente se lembrar, o sono é um terço da nossa vida, então temos que tomar os cuidados necessários para tornar esse momento o melhor possível. É nessa questão que entram os hábitos para a higiene do sono como criar uma rotina, cuidar da alimentação, evitar aparelhos eletrônicos antes de dormir e manter o local de dormir ventilado, silencioso e escuro.

A qualidade do sono pode afetar diretamente o humor e o nível de felicidade? 

Uma revisão científica publicada na revista Psychological Bulletin revelou que dormir menos que o normal faz com que as pessoas se sintam menos positivas e felizes. Os pesquisadores analisaram 154 estudos, abrangendo mais de 50 anos de estudo, e incluindo mais de cinco mil pessoas com idade entre sete e 79.

A perda de sono foi associada também a um maior risco de ansiedade e depressão. Jo Bower, que liderou o estudo da Universidade de East Anglia, disse: “Estes resultados são importantes porque as pessoas que se sentem menos positivas gostam menos de ver amigos, ir a eventos emocionantes ou ver o seu programa de televisão favorito, o que as coloca em maior risco de depressão”.

O humor depressivo pode acontecer porque dormir menos ou se privar de uma boa noite de sono faz com que o corpo libere quantidades maiores do hormônio do estresse cortisol. Além disso, não dormir o suficiente altera a quantidade de serotonina produzida pelo cérebro, desregulando nosso humor.

Mas tem uma boa notícia também: quem é pai ou mãe de crianças pequenas pode ficar tranquilo. A pesquisa mostrou que acordar várias vezes durante a noite para cuidar dos pequenos não causa um aumento significativo na predisposição a emoções negativas.

Então, o que podemos tirar de tudo isso? Bem, parece que a fórmula para ter uma vida mais positiva começa de forma bem simples: uma boa noite de sono.

E claro, se os problemas para dormir persistirem mesmo após uma boa higiene do sono ou se estiverem relacionados a outras questões, como ansiedade ou depressão, por exemplo, é importante procurar ajuda especializada para tratar o problema. Evite o uso de medicamentos para dormir por conta própria e busque sempre orientação médica.

Colaboração: Mônica Merlini

Fontes:

https://www.apa.org/pubs/journals/releases/bul-bul0000410.pdf

https://www.apa.org/pubs/journals/bul

https://www.scielo.br/j/csc/a/TBGCzH43FP8w3JgLNg54CCF/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9590398/

https:institutodosono.com/pesquisa/episono