Psicoterapia para pacientes com câncer. Maria Alice Fontes

Você conhece alguém que tinha tido diagnóstico de câncer? Qual a primeira coisa que te veio à cabeça quando soube?

O câncer é um diagnóstico que traz muitos fantasmas, pois apesar dos avanços no tratamento, só o nome “câncer” infelizmente está invariavelmente ligado com pensamentos e sentimentos negativos.

Entretanto, apesar da crença de doença terminal, câncer não é sinônimo de morte, mas de uma doença crônica, que pode abrir portas para reflexões profundas, ressignificar e até promover melhoria na sua qualidade de vida.

Precisamos desmistificar o assunto e compartilhar informações para a identificação precoce da doença com a possibilidade de tratamentos cada vez mais eficientes.

Quais são as fases que um paciente com câncer pode passar?

A primeira fase: diagnóstico e tratamento inicial

Essa fase geralmente é tratada de maneira surpreendentemente bem pela maioria dos pacientes. Apesar do choque, descrença, ansiedade e alguma depressão, essa fase pode trazer esperança de que o tratamento inicial seja bem-sucedido. Para alguns pacientes o diagnóstico de câncer pode ser uma grande fonte de culpa, pois acreditam que tenham causado o câncer por não lidarem com o estresse da vida bem o suficiente e, assim, produziram uma falha no sistema imunológico. Outros podem rapidamente se sentir oprimidos pelo medo da morte e pela ameaça de perda de independência, do trabalho e da renda.

A primeira fase é marcada pela ansiedade existencial sobre o sentido da vida. Alguns pacientes, encaminhados por oncologistas, não conseguem cumprir as recomendações de tratamento devido à fase de negação e depressão. Em geral, os esforços da terapia psicológica durante esse período devem estar direcionados principalmente para a adaptação a novos paradigmas e a um tratamento médico intenso.

Os modelos de apoio e de intervenção de crise são geralmente eficazes para fazer o paciente olhar para o presente e entrar em modo de solução de problemas, evitando excesso de preocupações com o futuro. O início do tratamento médico e psicológico precisa ser rápido e baseado em fatos e informações fidedignas. Neste momento a intervenção psicofarmacológica poderá ajudar nesse processo

Segunda Fase: acompanhamento

A fase de acompanhamento após o primeiro tratamento do câncer (cirurgia, quimioterapia e / ou radioterapia) geralmente é repleta de emoções confusas. O paciente fica satisfeito por ter terminado com os rigorosos tratamentos e os efeitos colaterais, mas agora tem que enfrentar o futuro com menos certezas. Esta nova fase traz à tona a vulnerabilidade devido a ameaça de recorrência da doença. Para os que nunca tinham entrado em contato com o conceito de finitude, terão de aceitar seus objetivos de vida não realizados e a necessidade de endereça-los de forma mais imediata.

Os pacientes encaminhados para consulta psicológica durante esta fase da doença tendem a estar em remissão e fisicamente bem. Essa é a fase em que geralmente voltam as reflexões sobre os relacionamentos e as carreiras profissionais e que identificamos grandes ganhos de insight e tomadas de decisão sobre o futuro.

Terceira fase: recidiva

A fase de recidiva e tende a repetir a fase de diagnóstico e do início do tratamento, mas com algumas diferenças significantes. Os pacientes podem culpar a si mesmos ou a seus médicos pelo que geralmente é considerado um fracasso. Pode-se vivenciar raiva, depressão, ansiedade e desconfiança e a busca por uma série de tratamentos alternativos. A conformidade com as recomendações médicas pode ser menor do que antes.

As questões psicológicas geralmente se assemelham às da fase de diagnóstico e tratamento inicial. A intervenção de crise e a terapia cognitiva, com ou sem medicação, muitas vezes serão suficientes para restabelecer a adesão médica.

Os pacientes encaminhados após a recidiva do câncer em geral são aqueles que confiaram demais nas defesas psicológicas e na negação em relação à sua doença, prognóstico ou estado de saúde e por vezes continuarão negando e com muita dificuldade de falar sobre o assunto de forma aberta e direta.

Quarta Fase: terminal

A fase terminal pode ser também chamada de paliativa, sendo sem dúvidas a mais difícil de todas. Mais recentemente temos visto os médicos lidando melhor com a fase terminal da doença. As técnicas paliativas têm o objetivo de reduzir a dor, ansiedade, depressão, insônia e outros desconfortos a fim de torna-los toleráveis . A consulta psicológica e psiquiátrica no hospital durante esta fase é bastante comum. Além do tratamento do delírio, ansiedade ou sintomas depressivos, alguns pacientes e suas famílias solicitam intervenção psiquiátrica para discutir quando encerrar o tratamento ativo e como viver sabendo que seu tempo é limitado.

Alguns pacientes estão abertos para discutir a morte assistida, estes em geral podem ser mais realistas do que seus médicos para falar sobre seu prognóstico. Outros precisam ainda resolver muitas questões sobre negócios pendentes, parentes ou amigos. Outros apenas precisam de conforto e relacionamentos empáticos de apoio porque temem o abandono.

As fases do luto segundo Elisabeth Klübber Ross

A psiquiatra suíça, radicada nos Estados Unidos da América estudou centenas pacientes com câncer e as reações que eles passavam. Ela identificou algumas semelhanças entre os pacientes e nomeou os 5 estágios do luto.

O primeiro estágio – negação, é realmente um mecanismo de enfrentamento para ajudar uma pessoa a sobreviver a notícias difíceis de lidar. Embora alguma negação possa ser saudável, ela vai impedir o paciente de lidar de forma eficaz com questões importantes.

A raiva é um estágio pelo qual quase todo mundo passa ao lidar com o luto. Perguntas como ‘por que isso aconteceu comigo?’ Ou ‘o que eu fiz para merecer isso?’ São comuns. Cercar-se de amigos e familiares e conversar com outras pessoas que estão passando por uma situação semelhante pode ser útil para superar a raiva.

A barganha também é uma fase que muitas pessoas enfrentam ao lidar com o luto. Pensamentos de ‘se eu tivesse feito isso’ são comuns. Muitas pessoas podem tentar barganhar para evitar perdas futuras mudando seu estilo de vida ou mesmo prometendo a Deus que mudarão seu comportamento em troca de boa saúde.

O quarto estágio é a tristeza. A maioria das pessoas que enfrentam um diagnóstico de câncer fica compreensivelmente triste com as notícias que afetam tudo, desde o humor, os níveis de energia e os hábitos de sono e alimentação. Procurar ajuda psicológica durante o processo de luto pode ser benéfica para a maioria das pessoas.

A última etapa é a aceitação do diagnóstico de câncer. Não significa que a pessoa abandonou completamente sua dor, mas que aceitou o câncer como parte de sua vida e enfrenta a situação de forma resignada e em paz, sabendo que passou por tudo o que poderia ser feito.

O tratamento psicológico dos pacientes com câncer é sabidamente eficiente para promover melhoria na qualidade de vida, ressignificando a doença e ajudando a estabelecer relações mais próximas e verdadeiras.

O apoio aos familiares é também fundamental, pois a orientação a respeito das fases e estágios psicológicos que os pacientes normalmente passam pode ser útil neste processo, favorecendo o apoio das pessoas que cercam o paciente de forma mais efetiva.


Bibliografia:

Straker N. Psychodynamic psychotherapy for cancer patients. J Psychother Pract Res. 1997;7(1):1-9. doi:10.1080/10503309712331331843

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1969.